Eu tenho um... eu tenho um... uma coisa!
Alguma merda que não sai de mim, não sai de mim e que me atormenta a cada momento, mesmo quando estou dormindo, eu tenho uma maldita consciência de mim, consciência de minha consciência, consciência da consciência de minha consciência... é uma paralisia que me acomete. Uma paralisia cerebral, muscular, óssea e de ânimo. Nada resolve, nada dissolve e somente a morte parece como a única solução possível. Pois nela, quem sabe, essa merda toda (Eu!) se dissolva. Só não posso mais ser, não posso mais viver, não pode mais continuar a ser esse que se diz ser enquanto escrevo e falo (em minha consciência!).
Isso tudo é impossível, é um... é um... AAAAAAAAAAARGHHH...
É um AAAAAAAAAAAAAAAARRGHH...
Não, simplesmente não pode ser! Por força, tem de deixar de ser! É preciso que isso deixe de ser. Algo faça deixar de ser. Que pare de ser e se desfaça. É preciso que algo deixe de me ser. Eu ser algo, deixe de... que se desfaça tudo, tudo! Eu, eu, eu, eu, eu, eu, TUDO!
Me deixe em paz, me deixe, não me deixe, não me deixe ser, não me deixe mais ser isso!
Isso que me atormenta, isso que me assombra, isso que é tudo e tudo é um pesadelo do qual nenhuma solução possível pode vir à luz. Nem o amor, nem o horror, nem deus, nem o diabo. Nem, nem... nem nada!
Que dor de cabeça!
Meus olhos doem!
Meu corpo inteiro dói!
Minha vida dói!
Mas não dói de doer, dói de não ser outra coisa que um eterno círculo, um redemoinho de nada, de nada nunca, de tudo imagem e projeções infinitas de caminhos, de eus, de universos e de universo nenhum, de eu nenhum, de caminho nenhum. Eu sou um homem nenhum, um estudante nenhum, um amigo nenhum, um amante nenhum, um sorridente nenhum, um existente nenhum.
Isso tudo, que não é nada, é o infinito. Um infinito que bem pode ser o inferno. Mas um inferno sem mal, nem bem como contraposição. Sem deus, sem transcendente, sem punição, mas tão somente uma doença infinita da consciência que não cessa de girar sobre o vazio de si mesma!


