Não sabia o que era aquilo que assombrava minhas noites até ver os globos vítreos que saltavam desesperados daquele crânio partido. A carcaça esmagada, encharcada de sangue e enxurrada, surgia na beira da rua como um pensamento ruim surge num devaneio.
Distraído na cabeça e automático nas pernas, tal encontro provocou-me, antes que repulsa, a curiosidade. A expressão daqueles olhos se impunham com tanto ímpeto diante do mundo que era como se a própria vida corporificada berrasse de pânico diante do toque da morte.
O desespero, o calafrio, o terror... A violência imaginária que atormentava meu corpo, que nos momentos mais escuros ameaçava dissolver meu ser em sangue e loucura, de repente se mostrava para mim materializada naquele gato atropelado.
Igual ele, pequeno, frágil e banal, tudo o que sou pode ser arrebentado por um golpe aleatório do acaso. Mas nesse dia, diante da imagem daquele corpo morto, este pensamento me pareceu fascinante...

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