domingo, 25 de agosto de 2019

Carta autorreferente (nota para eu mesmo)

Eu queria contar do dia em que o Jorge morreu. Aquele dia em que uns conhecidos dele perceberam que ele não mais existia. Não foi morte acidental, nem suicídio. Ele simplesmente morreu.


Os últimos relatos que ouvi foi de que ele estava como sempre. Mesmas roupas e costumes excêntricos que eram marcas de sua personalidade. Reclamava da vida, perguntava coisas que não faziam sentido para ninguém além dele próprio. Cantava alto em lugares públicos, lia com bastante regularidade na biblioteca local, e fazia bolos de vez em quando.

Ninguém entendeu muito bem o Jorge em vida. Ele até que tinha bastante colegas e amigos. Das características que o tornava uma pessoa insuportável para alguns, menciono sua mania de discordar de tudo. Isto e a maneira seca, e muitas vezes agressiva, de falar com seus conhecidos. Fazia isto sem explicação aparente. 

Mas fato unânime entre seus circundantes era que Jorge era uma pessoa muito esquisita. Talvez por isso não foi possível entrever, em seu comportamento, o destino que estava por se lhe abater. 

Foi assim, de repente.

Sua mãe só se deu conta que Jorge deixou de existir quando terminou a novela das sete e se trocava para dormir. Em vão percorreu as trilhas meio apagadas da memória em busca do filho perdido. 

Seu pai soube na estrada. Estacionou o caminhão e chorou de soluçar.

Cada um de seus amigos reagiram de uma forma. Uns choraram, outros ficaram sem nenhuma reação. Teve quem se desesperou e quem sentiu remorso. 

Da reação dos irmãos do Jorge não quero mencionar, para que não haja confusão entre estes e os meus irmãos.

Acontece que Jorge morreu. E o corpo não foi encontrado. 

Não houve ritual coletivo que certificasse o óbito. 

Aliás, nem faz sentido eu falar do dia em que ele morreu, já que a data do ocorrido é inapreensível. 

O que sei é que ele continuava cumprindo o mesmo cronograma de atividades, ingerindo as mesmas refeições, falando dos mesmos assuntos, se angustiando com os mesmos medos e apreciando as mesmas sensações.

Até que um dia não os fazia mais.

Ninguém o matou. Apenas houve a constatação.

E
o primeiro a anunciá-la foi eu mesmo.

sábado, 10 de agosto de 2019

MEDO DA MORTE

Não sabia o que era aquilo que assombrava minhas noites até ver os globos vítreos que saltavam desesperados daquele crânio partido. A carcaça esmagada, encharcada de sangue e enxurrada, surgia na beira da rua como um pensamento ruim surge num devaneio. 

Distraído na cabeça e automático nas pernas, tal encontro provocou-me, antes que repulsa, a curiosidade. A expressão daqueles olhos se impunham com tanto ímpeto diante do mundo que era como se a própria vida corporificada berrasse de pânico diante do toque da morte. 

O desespero, o calafrio, o terror... A violência imaginária que atormentava meu corpo, que nos momentos mais escuros ameaçava dissolver meu ser em sangue e loucura, de repente se mostrava para mim materializada naquele gato atropelado. 

Igual ele, pequeno, frágil e banal, tudo o que sou pode ser arrebentado por um golpe aleatório do acaso. Mas nesse dia, diante da imagem daquele corpo morto, este pensamento me pareceu fascinante...