quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Sobre o sofrimento

Tem momentos na vida que parece que a gente fica esgotado de tudo. Quer dizer, no meu caso não são só alguns momentos, mas é quase a totalidade da minha vida. Todo dia eu vejo mil novos motivos para estar cada vez mais desanimado com a minha vida e com o mundo que me rodeia: a comida de plástico que como, a água estragada que bebo, o ar tóxico que respiro, a estrutura podre de poder que rege nossos corpos, etc., etc.

Difícil mesmo é encontrar algum motivo pra levantar todo dia da cama para ter que encarar tudo isso mais uma vez e mais outra, até o momento derradeiro em que a gente não vai mais levantar, o que também não vai ser tão ruim assim, se pensarmos bem...

Acho que a gente vai perdendo o tesão pela vida. Tanto é que uma vez me fizeram uma pergunta que me deixou muito desconcertado. Me perguntaram do que eu realmente gosto. Assim, no duro! Eu não tinha ideia de como responder aquilo. Fiquei com a minha cabeça quase que explodindo tentando encontrar alguma coisa que não fosse fugaz, superficial ou que não fosse alguma coisa que eu só fazia e fingia gostar por causa dos outros ou para fugir de alguma coisa. E nada!

Engraçado que eu nunca choro nem nunca estou triste propriamente dito. Só é aquela sensação de desconforto e de insatisfação perene...

E a resposta àquela pergunta não surgia de jeito nenhum até aparecer nas letras de uma canção do Itamar Assumpção. Na verdade é um poema do Leminski, musicado, chamado Dor Elegante. Eram lindos aqueles últimos versos.

"Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra"

Aquilo me caiu como uma luva. Finalmente eu pude compreender a natureza daquilo que me dava força e tesão pra continuar todo dia. Pode soar estranho e masoquista isso (e é mesmo), mas num mundo onde tudo que prezamos, como o ar, o tempo, o prazer e os desejos nos são tomados por essa lógica perversa que nos domina, acho que a única coisa que eu ainda tenho certeza de que é real nessa minha vida é o sofrimento. É única coisa que tenho que é minha, que me faz ter consciência de que eu existo nesse mundo, e que ninguém vai me tirar.

Podem me tirar de tudo nessa vida, menos o sofrimento que sinto por isso que estão me fazendo. E com ele eu encontro minha força.

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